
O dia em que morreu Julio Sosa
(Leitura do livro Eu Sou Augusto, feita por Altair Pimpão)
Na nossa infância ocorrem fatos que ficam gravados para sempre na nossa lembrança. Não foi diferente com Augusto, como rememorou e refletiu sobre a morte.
Quando morreu Julio Sosa (aquele cantor de tango, uruguaio e famoso) ele tinha oito anos. A mãe tinha preparado polenta com molho vermelho para o almoço. Do nada, o rádio se alvoroçou e a voz do locutor saltou com mil sinais de alarme. A notícia bateu forte na família.
Ele chorava num canto. Não entendia muito bem o motivo, mas chorava desconsolado.
– Não seja bobo, que coisa! Ele foi para o céu…
E o céu era um lugar remoto, inalcançável, espumoso, cheio de nuvens, luzes e música suave. Julio Sosa estava lá, flutuando numa nuvem, com um corpo renovado, claro, porque se subia como ficou depois do incidente… Em realidade, não conhecia bem o cantor quando o cara da rádio informou sua morte, por esse motivo nem ele entendia por que chorava tanto.
Depois, muito depois, começou a gostar dos tangos. Dos tangos não, pois só os velhos escutavam tangos; da voz de Julio Sosa, principalmente quando cantava “Cambalache”, “que o mundo foi e será uma porcaria, eu já sei, ta-ta-tam-ta”. Era o único que lembrava. Que o mundo foi e será uma porcaria.
As histórias de mortes choveram, a partir de então, sobre a sua infância. Onde estava, até aquele momento, a morte? Por ali, oculta numa suposta inocência, esperando o momento oportuno para dar o golpe fatal. E antes desse crucial momento, revelar todo o medo, acumular terrores para que, antes do golpe, todos sofressem a nervosa espera, a dolorosa expectativa.
Morreu um menino eletrocutado e ele viu seu cadáver. Sonhou com o pequeno durante muito tempo. Vinha por ele, para levá-lo para aquele lugar escuro e triste. A mãe acendia a luz. Tic! Tudo se evaporava, ia embora o menino fantasma, mas o terror persistia: debaixo da pele, detrás das pálpebras. Apenas fechava os olhos, voltava o pesadelo com renovadas forças.
O trem atropelou um automóvel com a família inteira dentro e ele viu, entre a ferragem retorcida, os pedaços de carne, a massa encefálica de um crânio partido. Por vários dias, não consegui provar carne: “serei vegetariano”, prometeu, “muito vegetariano”, repetia; “vegetariano?”, “sim, vou comer somente alface e tomate e algumas frutas, café com leite, pão e ovos cozidos”; “Augusto, come essa comida e deixa de frescura!”; “não quero, não quero, sou vegetariano como aquele homem”; “Augusto, não me faz perder a paciência, come!”; “não quero, não quero, não quero…”
A morte. A morte era uma velha desdentada, uma caveira, uma cobra imensa que se abria para engoli-lo; era uma velha enrolando o fio da vida; era uma mulher jovem, linda e sedutora que o chamava com doçura. De velha desdentada a mulher jovem, bela e sedutora. Bela mistura!
Era algo impreciso, nascendo do próprio sangue, algo familiar, cotidiano, algo que já tinha nascido com ele. Era a morte convivendo, dia a dia. Naqueles tempos, quando acreditou que entendia tudo, já estava cansado de andar sobre a Terra.
(EU SOU AUGUSTO – CARLOS HIGGIE- EDITORA ALCANCE)




