
AUGUSTO E GABRIELA
(Leitura e releitura, do jornalista e escritor Altair Pimpão, do livro EU SOU AUGUSTO, de Carlos Higgie)
Augusto e Gabriela sentados num bar. Ela tomando um suco de laranjas e ele, como sempre, um cortado, com mais leite do que café. Gabriela olhando para ele e Augusto, distraído, olhando para a rua. Com voz meio apagada, a moça disse que estava com medo.
̶ Medo de quê?
̶ De tudo, de quase tudo.
̶ Alguma coisa concreta, algum motivo?
̶ Sim.
̶ O que está deixando com tanto medo?
̶ Acho que estou grávida.
Silêncio sepulcral; só se ouvia o murmúrio das pessoas e os sons que vinham da rua.
̶ Acha ou tem certeza?
̶ Estou atrasada. Vários dias atrasada. Se estou grávida, o que faremos? Como contar para meus pais?
Augusto pensou em silêncio: “As mulheres parecem frágeis, mas não são. Usam sua aparente fragilidade, sua suposta debilidade para forçar a gente, para nos levar de cabeça para o abismo. Aí mencionou uma solução.
̶ Até o primeiro mês não há problema. Uma pílula ou duas resolvem tudo.
̶ Muito fácil, não? Muito fácil.
̶ Para que complicar as coisas, Gabriela? Só se você realmente quer ficar grávida.
̶ Não. Não quero. Pensando bem, seria a única coisa de ti que ficaria comigo. Sei que logo, logo, vai voar.
̶ Não começa com esse papo.
̶ Tenho certeza de que vai embora, que vai querer outro corpo, que encontrarás outra mulher, porque você é um eterno insatisfeito.
Todas as ideias caíam sobre ele em câmera lenta. O medo é de papel, as mulheres o usam e nós, homens, somos solitários condenados ao silêncio. O amor é névoa que se desvanece, o sexo é simplesmente e somente o momento mágico do orgasmo; as outras coisas, todo o restante, são pura caricatura de alguma coisa indefinida que era para ser e nunca será.
̶ Gabriela, nunca te prometi amor.
̶ Nunca pedi amor. Porém, acho que você é terrivelmente injusto e egoísta. No momento do prazer, naqueles momentos, você se sente maravilhoso e muito homem. Quando surgem os problemas, as complicações, você simplesmente lava as mãos e manda eu me ralar. Isso é justo?
̶ Garota, escuta, me escuta. Quando começamos nosso relacionamento, comprei os anticoncepcionais. Tomou? Não. Ficou com medo dos efeitos colaterais e sei lá mais o quê. Muito bem, foi uma opção. Agora, eu sei de umas pílulas que solucionam tudo, dentro do tempo certo, e me vêm com esse discurso sobre justiça e injustiça. Eu gosto de ti, muito, e vou gostar por muito tempo, mas nem por isso vou deixar que me amarre, nem que eu seja responsável por uma criança que viria ao mundo só para sofrer. Não me sinto pronto para ser pai. Por que vou fazer? Por que vamos fazer algo que só vai nos trazer arrependimento?
̶São só desculpas, palavras vazias, para não assumir tuas responsabilidades. O que eu sinto é diferente; mais que gostar, eu amo! Amor é outra coisa, algo que você não conhece e talvez não chegue a conhecer, jamais.
̶ Outra coisa é um menino chorando de fome. Pensa nisso, Gabriela, pensa.
Como nas novelas da Globo, o capítulo termina com a história em suspense. Vamos saber o que aconteceu em um dos próximos episódios. Ou será que Augusto não vai nos contar?





2 Comentários
Maravilha meu querido!
Parabéns mestre